Coluna Willian Tito Política Dinâmica
A maldição do buquê

A porta se fechou. Estava sozinha naquele ambiente. Era algo mágico. Todas as paredes eram cobertas por panos coloridos. Lembrava uma tenda cigana. Alguns objetos de decoração estavam pendurados nas amarras de um pano com o outro

20/05/2015 15:45

Apresento hoje um conto que faz parte de livro ainda não publicado. “Contos, inclusive eróticos”, previsto para ser lançado em 2016, traz este e muitos outros contos inéditos. A versão do conto que estará no livro é um pouco mais apimentada. O espaço não é adequado para o conteúdo. Vai uma versão mais light. Espero que gostem.



Cheguei ao meu limite. Não consigo entender o que acontece. Toda vez que eu começo a levar um relacionamento a sério, sou abandonada. Que sina! Hoje em dia então, se falar em namoro, é como se desse um choque no carinha. Casamento é palavra proibida, saem correndo. É como se tivessem visto o demônio em pessoa.

Já cansei de ir a casamento de amigas de infância, de trabalho, das primas, só eu que não caso. Poxa! Perdi as contas de quantas vezes fui madrinha e testemunha de casamentos. Quantos eu já fui? Acho que nem dá para calcular. Mas bota aí uns cinquenta ou mais.

Desde mocinha atraí garotos e homens de todas as idades. Nunca tive dificuldade para arranjar paquera e namoradinho. Eles gostam de mim. Fazer o que? O único problema é a inveja da mulherada. Isso já me custou muita confusão.

Não sei se é o meu jeito, sempre divertido. Se é o meu olhar. Meus cabelos lisos e sedosos. De corpo não sou tão bonita. Mas dá pra quebrar o galho. Deve ser o conjunto. Sou um tipão mesmo. Um mulherão que não passa sem chamar a atenção.

Meu pai falou para minha mãe que sonha com o dia em que vai me levar até o altar. Eu toda linda vestida em um longo vestido branco. Depois uma festa maravilhosa, com muita música, muita alegria, que ele faz questão de pagar. E que ela dure até o dia amanhecer.

Só que as coisas não saíram muito bem como ele pensava. Tive dois relacionamentos sérios. Mas, de uma hora pra outra, acabou. Não era amor. Não sei se foi eu que não soube administrar. São tantas dúvidas. Entrei em depressão. Engordei. Emagreci. Um tormento. Depois passou.

Quando a gente passa dos trinta, as coisas ficam mais difíceis. A firmeza da pele? Haja creme. É preciso cada vez mais maquiagem e outros truques para aparentar ser mais jovem. Eu me cuido muito, faço academia, tenho uma alimentação bem saudável. Mas mulher tem prazo de validade. A Lei da Gravidade pesa muito mais para nós.

Queria ter três filhos. Estou consolada e muito feliz se conseguir ter pelo menos um. Uma vez, tentei engravidar meio que por “descuido”. Mas o carinha sacou minha ansiedade e na hora h, saiu fora. Eu nem queria que ele assumisse. Quer dizer, se ele não quisesse assumir, eu segurava a barra sozinha. Mas nem isso deu certo.

Atualmente, só rapazes mais novos do que eu se interessam por mim. Só querem se divertir. A gente sai duas, no máximo três vezes e somem. Mas não falta. Sempre tem algum garotão interessado em ficar comigo. Só gato. Estou ficando cansada disso.

Quando algum homem maduro se interessa, sempre é casado. Taí uma coisa que não falha: é coroa bonitão, é casado. Aff! E de confusão estou correndo longe. Eu querendo constituir minha família, não vai ser às custas de destruir a dos outros. Deus me livre!

Quando não é casado, é separado e não quer ter mais filhos. São cheios de problemas com ex-esposas e vez ou outra, deve rolar uns revivals. Acho que querem só me mostrar para os amigos. Tipo dar uma de pegador. E eu fico de bonequinha, fingindo que não estou sacando que sou usada.

Eu quero um homem só pra mim. Que não tenha filhos e que não seja muito mais novo do que eu. Tá! Pode até ser mais novo, mas não muito. Nem precisa ser muito gato. Basta que seja homem. Só que desse modelo tá cada vez mais difícil. Quase impossível.

Tô dando um tempo. Chega de aventuras. Chega de ser rejeitada. Chega de ser usada. Homem não falta, mas estou fechada para balanço por tempo indeterminado. Não quero mais relações de brincadeira. De longe eu sei se o cara é só mais um que me quer só pra transar e aumentar sua lista de conquistas. Tô fora!

Tenho uma prima, minha melhor amiga, que é justamente o contrário. Tem um monte de caras querendo relacionamento sério com ela. Se ela não tivesse pulado fora, já tinha casado há anos. Mas ela não quer nem saber de casamento. Filho, muito menos. Ê mundo desigual!

Um dia desses, estávamos conversando sobre essas coisas. Ela me falou de um cara que encasquetou que ia casar com ela. Apontou o dedo na cara dela e disse que ela ia ser a mãe dos filhos dele. Mesmo com ela terminando o relacionamento, sempre recebe flores em casa, no trabalho, com juras de amor eterno. Ele não desiste.

Maura disse que apelou a uma cartomante para se ver livre do pentelho, que mesmo à distância, mantém o cortejo. “Ele é tão romântico!”, reclama a sortuda, chateada. Para ela, é azar. Ah se eu tivesse um gato apaixonado assim. Era tudo o que eu queria. 

- E aí, Maura? O carinha deu um tempo?

- Mulher, ele está mais distante.

- Como assim?

- Não tem mais ligado nem me procurado.

- Será que ele desistiu?

- Lana, não sei. Mas está mais na dele.

Meu nome é Alana, mas a minha família e os amigos mais chegados me chamam Lana. Fiquei pensando: já que a cartomante conseguiu diminuir o assédio do carinha da Maura, será que ela não pode me ajudar a encontrar um homem que queira ficar comigo pra valer?

Eu nunca botei fé nesse lance de cartomante. Até fui algumas vezes quando era adolescente, mas foi só na bagunça com as amigas. Mas botar fé, vou nem mentir que acreditava nesse negócio de cartas. Na situação em que estou, vou apelar para o que estiver ao meu alcance. Tô ficando desesperada sim!

- Maura, será que essa cartomante não poderia me ajudar a encontrar um grande amor?

- Lana, não sei. Mas, se você quiser, a gente vai lá e vê qual é.

- Mulher, não tenho nada a perder. Tá valendo tudo!

- Tá! Mas vai com calma, “mermã”!

Rimos do meu desespero. Eu ri por fora, mas por dentro estava uma pilha. Bem mais nova, a Maura não tem ideia da minha situação. Evito ficar comentando demais porque a minha família está preocupada. Desde a última depressão, estão sempre atentos. Acham que estou obcecada. E o pior é que estou mesmo.

Fui pesquisar sobre a cartomante. Ela tem uma boa reputação. Joga tarot há mais de quarenta anos. Dona Rogéria parece ser uma pessoa séria. Criou a família através do que conseguiu com as cartas. Perguntei a muitas pessoas e todas disseram que ela se garante. Sempre acerta.

Marcamos uma tarde e fomos juntas até a casa da famosa Dona Rogéria. Claro que estava nervosa, ansiosa, não via a hora de estar frente a frente com o meu destino escrito nas cartas. Minhas esperanças estavam todas depositadas no que podia render aquele encontro. Era tudo ou nada.

Era uma casa simples. Uma varanda com cadeiras confortáveis e bancos nem tanto. Muitas plantas penduradas em jarros. Muitas. Por todos os lados, pequenas estátuas e quadros de divindades hindus. Outras figuras que não consegui reconhecer de que panteão religioso pertenciam. Pareciam ciganos. E, claro, nossas divindades católicas. Entre elas, Santo Antônio, a quem já recorri muitas vezes e está prometido de ficar um longo período de cabeça para baixo, caso não arrume um marido para mim.

Um perfume de incenso estava pelo ar. O que criava um ambiente ainda mais curioso. Havia uma expectativa misturada ao oxigênio, além do perfume de benjoim. Todas as pessoas que esperavam a sua vez eram mulheres. Será que homem vai se consultar em cartomante?

Tínhamos marcado horário. Chegamos e fomos nos apresentar na antessala onde atendia Dona Rogéria. Uma jovem senhora nos recebeu com toda a simpatia. Um sorriso no rosto, aliviou um pouco a minha tensão. Minhas mão suavam. Acho que tremia um pouco. Pagamos pela consulta. A atendente nos falou que seríamos as próximas.

- Ai Maura! Eu tô muito nervosa. Dá pra notar?

- Calma, “siá”!

- Será que ela vai dizer que não tem jeito?

- Ô mulher, tem fé! Vai dar tudo certo!

- Tomara!

- Também se não der, o mundo não vai se acabar, né?!

Não respondi, mas pensei: vai se acabar sim. Se já não acabou. A Maura nem imagina que eu não sei mais como vai ser a minha vida. Não consigo ver luz no fim do túnel. Se a Dona Rogéria disser que não tem jeito pra mim, acho que vou morrer. Pelo menos de chorar eu vou.

Fiquei olhando para a fumaça que saía do incenso posto num xaxim com espada-de-são-jorge. Ondas em espirais davam voltas. De vez em quando o vento soprava e desfazia aquele desenho esfumaçado, mas, em seguida, outro ia se formando. O tempo parecia não passar. Se ainda tivesse unhas, ia roer. Mas meus dedos estavam no toco. Morria de vergonha e vivia com as mãos fechadas ou em uma posição que não desse para ver aquele estrago.

Olhei ao redor e vi que não era só eu que estava nervosa. Havia outras mulheres com um aspecto bem preocupado. Uma delas era consolada por outra amiga. Acho que tinha idade para ser minha mãe. Em sua maioria, eram duplas de amigas. Nessas horas é que se vê a verdadeira amizade entre as mulheres.

Uma moça saiu sorridente e foi logo recepcionada por outra. Eram parecidas. Deviam ser parentes. Ouvi meu nome. A secretária da Dona Rogéria chamou meu primeiro nome discretamente. Maura me olhou nos olhos, mas não se levantou. Entendi que era para ir sozinha. Fui até a mesinha e a senhora se pôs de pé e me acompanhou até uma sala que estava na penumbra. Pediu para eu sentar em um puf em frente a uma mesa com uma toalha azul royal cheia de estrelinhas, sóis e luas sorridentes.

A porta se fechou. Estava sozinha naquele ambiente. Era algo mágico. Todas as paredes eram cobertas por panos coloridos. Lembrava uma tenda cigana. Alguns objetos de decoração estavam pendurados nas amarras de um pano com o outro. Em cada canto, uma vela branca de sete dias. Um perfume suave estava pelo ar, mas não era de incenso. Um cheiro amadeirado tomava de conta. Agradável.

Em minha frente, um grande baralho estava amontoado com as figuras para baixo. Eram cartas grandes. Maiores que a palma da mão. Ao fundo, um altar com uma porção de divindades iluminadas por uma única vela. Santo Expedito me chamou a atenção. Quantas vezes já rezei de joelhos pedindo a graça de ser mãe algum dia.

De repente, uma senhora com uma longa saia sai detrás de um pano que escondia uma porta. Eu nem tinha percebido. Era Dona Rogéria. Além da saia indiana em tom laranja, vestia uma bata branca cheia de bordados de rosas. Pulseiras e anéis impressionavam. Ela sentou em silêncio em uma cadeira com várias almofadas. Botou as mãos nas cartas e concentrou-se por alguns segundos que pareceram horas. Talvez fizesse uma oração, mas não balbuciou nenhuma palavra.

Só então ela olhou bem nos meus olhos. Que olhos! Azuis bem claros. Eu estava de frente a uma bruxa. Foi o nosso primeiro encontro, mas tive a certeza de que nunca mais eu ia esquecê-la. Que imagem forte! Ela passava segurança e não tinha dito nenhuma palavra. Até que falou com uma voz suave e segura. Acalmei.

- Tudo bem, minha filha?

- Acho que vai ficar – sorri confiante olhando-a nos olhos.

- Alguém já botou tarot pra você?

- Já! Faz um tempão. Mas não era nada muito sério não – ela ficou me olhando por alguns segundos, uma pausa maior do que o necessário.

- Bem, temos duas formas. Podemos abrir o tarot e falar sem uma tema específico ou abrir com algo que você queira saber.

- Pode ser as duas?

- Pode.

Dona Rogéria tinha um lenço de seda amarrado na cabeça. Não dava pra ver nem um fio do cabelo dela. A pele branca era toda vincada. A maquiagem pesada disfarçava um pouco. Mas a vitalidade dela era impressionante. Mostrava um poder interior muito grande. Os gestos eram precisos e muito econômica com as palavras e as expressões.

Com os braços abertos, pegou em cada uma das minhas mãos e fizemos juntas um círculo mais ou menos do tamanho da mesa, que também era redonda. Ela murmurou algumas palavras que não entendi absolutamente nada. Fez o sinal da cruz e eu fiz também, nem perguntei se podia ou devia, mas fiz. Pôs as mãos magras mais uma vez sobre as cartas a uma certa altura, sem tocá-las. Talvez estivesse irradiando alguma energia. Embaralhou as cartas que tinham imagens medievais em tons dourados. Colocou o baralho em minha frente.

- Corte em dois, por favor!

Cortei o baralho e botei a parte de cima à minha direita. Ela foi pegando uma carta após a outra e formou uma fileira horizontal com oito cartas. Depois mais uma fileira, só que na vertical e com nove cartas. A quinta carta da horizontal a minha frente recebeu a quinta carta postada na vertical. Ela ajustou para que ficassem uma sobra a outra com exatidão, com todo o carinho.

Ela foi virando a fileira horizontal, com calma. Uma a uma. Em silêncio. Olhava, dava um tempo e virava a próxima. A do meio ela não mexeu. Da mesma forma ela fez com as cartas posicionadas na vertical. Eu olhava para ela. Tentava desvendar algum sinal para interpretar a expressão. Mas não consegui nada. Finalmente ela começou a falar.

- Vejo que você vive rodeada de homens.

- Sim! – disse afirmando com a cabeça, na mosca.

- Muitos homens bonitos estão sempre a lhe cortejar. Mas...

- Mas... (repeti para quebrar o silêncio – ela parecia escolher a palavra certa)

- Mas não recebe a mesma atenção que dá.

- É. (era impossível não perceber a tristeza da minha afirmativa)

Falou da minha vida profissional, que ia bem, obrigada! Tocou em detalhes do meu dia a dia que nunca comentei com ninguém e tudo estava batendo em todos os sentidos. Estava de boca aberta para a Dona Rogéria. A ponto de me sentir nua. Ela parecia ver através de mim. Fez um raio x perfeito.

As duas cartas do meio ainda estavam sobrepostas. Ela continuava falando de pequenos detalhes, como se para me dar certeza de seus dons. Para mim já era mais que suficiente. Estava confiante. Minha esperança estava bem alimentada. Acho que ela percebia nos meus olhos. Toda a minha aflição havia passado. Finalmente ela mostrou as duas cartas que ainda estavam emborcadas. Ficou olhando calmamente e balançando a cabeça, como se estivesse confirmando o que já desconfiava.

- E aí? (que aflição)

- Você já pegou algum buquê de casamento?

- Vários!

- Quantos?

- Três! (lembrava de cada um e as imagens passaram rapidamente como em um filme)

- É!

- É o que?

- Você está sobre a maldição do buquê.

- Hã?! Maldição?

- Sim! Maldição. A maldição do buquê! (o tom que ela deu foi como uma sentença de juiz – fiquei apavorada)

- E agora? O que é que eu faço?

Dona Rogéria pegou em minhas mãos com ternura. Olhou bem fundo em meus olhos. Ela me pedia calma, mas não dizia nenhuma palavra. Uma telepatia aconteceu por meio de seus lindos olhos azuis. Fui acalmando e ela continuou segurando minhas mãos até sentir que eu já estava mais equilibrada.

- Você cometeu um erro.

- O que foi que eu fiz?

- Pegou buquê de casamento sem ter um pretendente em vista. E não foi apenas um. Foram três, o que piora as coisas.

- Mas eu não sabia. (tentava me desculpar, era inocente)

- Jamais se deve pegar buquê de casamento se não há pretendente em vista, apenas por brincadeira.

- Ah se eu soubesse.

- Tudo tem energia. O buquê tem muita força.

- E agora? Tem jeito? (o medo tomou todo o meu corpo e pensamento, achava que nunca ia me casar)

- Talvez.

Calmamente, percebendo que fiquei muito abalada, Dona Rogéria disse que o primeiro passo era não pegar mais buquê. Sem pretendente bem encaminhado, de jeito nenhum. Calada, apenas concordava com a cabeça, arrependida da festa que fazia, até brigava por causa de um buquê.

- Bem, tem solução, mas não sei se você está disposta a fazer.

- Nossa! É tão difícil assim?

- Vai exigir muita coragem e empenho para reverter a maldição.

- Eu faço qualquer coisa!

Se tinha jeito, eu ia fazer o que estivesse e o que não estivesse ao meu alcance. Mas eu ia realizar meu sonho. Dona Rogéria me deu um imenso susto, mas, ao mesmo tempo, encheu meu coração de esperança. Havia solução e eu ia encontrá-la. Ah se ia!

A segunda parte do conto “A Maldição do Buquê” será publicada na próxima semana.

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