DENÚNICA DE CHANTAGEM NA CULTURA

POLÊMICA DA ORQUESTRA SINFÔNICA: MAESTRO CONFIRMA QUE PREFEITURA IMPÔS TROCA DE CONTADORA PARA MANTER CONTRATO

Marcos Melo Marcos Melo
17/05/2021 10:21 - Atualizado em 17/05/2021 14:57

Robert Rios (PSB) atirou no que achava que tinha visto, mas acertou no que não viu. A briga entre o atual vice-prefeito de Teresina e o ex-prefeito Silvio Mendes revelou o que pode ser o primeiro caso grave de corrupção dentro da gestão de Doutor Pessoa (MDB). E mais: pode conectar a campanha dele ao escândalo investigado pela Polícia Civil na Operação Fake News, que apura um esquema de disseminação de informações falsas e ofensivas contra políticos e gestores públicos do Piauí. 

Polêmica encabeçada por Robert Rios na imprensa pode ter apontado para corrupção na atual gestão de Doutor Pessoa (foto: Jailson Soares | Instagram | PoliticaDInamica)

Na última quinta-feira (13), Silvio apontou que dirigentes da Fundação Cultural Monsenhor Chaves teriam chantageado o maestro Aurélio Melo para manter o convênio entre a Prefeitura Municipal de Teresina e a Orquestra Sinfônica. O relato de Silvio foi confirmado pelo Política Dinâmica junto ao maestro.

A Fundação Municipal de Cultura está sob gestão do grupo do deputado Evaldo Gomes, do Solidariedade (foto: Jailson Soares | PoliticaDInamica)

A polêmica veio à tona após a gestão de Doutor Pessoa (MDB) encerrar o contrato de gestão, de maneira unilateral, com a Associação dos Amigos da Orquestra Sinfônica de Teresina (AAOST). A quebra de contrato é assinada pelo atual presidente da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, Scheyvan Lima, indicação política feita pelo deputado Evaldo Gomes para o cargo.

Scheyvan trabalhou na campanha da filha de Evaldo Gomes e foi indicado para a FMC na cota do grupo deles (imagem: Instagram)

Segundo Robert, a PMT queria se livrar de "atravessadores", mas, na realidade, o que se vê é que o problema era indicar a pessoa que iria ordenar as despesas feitas com o dinheiro do repasse. 

QUAL SERIA A CHANTAGEM?

No início do ano, o mesmo Scheyvan teria se reunido com o presidente da AAOST, o maestro Aurélio Melo, para comunicar a intenção de encerrar o tal contrato de gestão, o que é, de fato, ato legal e direito da Prefeitura. Porém, teria sido "oferecida" a Aurélio Melo uma outra opção: o contrato seria mantido desde que a gestão financeira da Associação fosse trocada.

Segundo apurado pelo PD, essa indicação seria política, feita pelo grupo político do deputado estadual Evaldo Gomes e da deputada federal Marina Santos, ambos do Solidariedade.

"Estou denunciando isso. (...) Quem é essa nova contadora? É senhora que tem uma pessoa jurídica em Valença, numa outra cidade, e é esposa de um dirigente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves", escancarou Silvio Mendes. O ex-prefeito ainda afirmou que essa "nova contadora" não dá expediente.

Que se saiba até aqui, não há denúncia formal nem indícios de que a gestão financeira da AAOST fosse suspeita de irregularidades. Condicionar a manutenção do convênio entre a PMT a esta "troca" de serviço contábil foi encarado como uma ameaça.

MAESTRO CONFIRMA AMEAÇA

[Atualização 

Das 10h21min às 14h47 do dia 17/05/2021, informamos incorretamente que Scheyvan Lima já havia sido presidente da Fundação Municipal de Cultura na última gestão tucana. No entanto, a informação correta é que ele ocupava a presidência de outra fundação, a Wall Ferraz. O texto foi corrigido. Pedimos desculpas aos nossos leitores.

Fim da atualização]

Scheyvan Lima já havia participado dos quadros da PMT na gestão do ex-prefeito Firmino Filho (PSDB), ocupando a presidência da Fundação Wall Ferraz.  

Em contado com o maestro Aurélio Melo, o PD confirmou a denúncia de Silvio. "Terminei negociando com eles, pra não ter atrito nesse começo [da gestão de Doutor Pessoa]", revelou Aurélio, que disse ter, à princípio, se negado a fazer qualquer troca sem que houvesse justificativa plausível. "Eu perguntei se eles [da FMC] estavam sabendo de alguma coisa errada feita pela nossa contadora. Mas não tinha nada errado, eles só queriam trocar mesmo. Eu não entendo de contas, nossa gestão financeira é toda feita com a contadora que já trabalha com a gente desde sempre. Então eu disse 'Coloque essa aí, mas deixe a nossa também, para fazer uma transição, eu não sei fazer', e assim foi feito", relatou Aurélio Melo.

Com a "negociação" estabelecida, a AAOST ficou com mais esta despesa extra. O maestro também confirmou que a contadora imposta pela gestão de Doutor Pessoa não dá expediente no local onde a contadora mais antiga está diariamente.

Robert Rios entende que a nova maneira de fazer gestão da PMT é uma maneira de economizar e evitar corrupção. Será? (foto: Jailson Soares | PoliticaDInamica)

Ainda segundo Aurélio Melo, houve, em seguida, o que ele acredita ter sido um "mal entendido" dentro da própria Prefeitura. "O Robert gosta de falar umas coisas malucas. Disse que a contadora ganha mais que secretário da Prefeitura, que ela era casada com o presidente da Associação, que no caso sou eu. Nada disso é verdade. Ela não é minha esposa, nem ganha esses R$ 12 mil reais que ele fala", acrescentou.

A TAL NOVA CONTADORA

A Fundação Municipal de Cultura é hoje uma cota do Solidariedade, partido do deputado estadual Evaldo Gomes, da deputada federal Marina Santos e da vereador Fernanda Gomes, filha de Evaldo. O atual presidente, Scheyvan Lima, foi o principal cabo eleitoral de Fernanda nas eleições de 2020.  

O nome da nova contadora é Ivanilde Lima da Silva, proprietária da ICont Soluções, empresa de contabilidade cuja razão social é IVANILDE SERVICOS CONTABEIS EIRELI, CNPJ: 10.596.307/0001-50. Essa empresa, que está sediada no município de Valença do Piauí (a 225km de Teresina), também presta serviços para o gabinete da deputada federal Marina Santos em Brasília.

Fransélio e Ivanilde: ele acompanha Marcos Vinícius desde as gestões dele no município de Novo Oriente, ela presta serviço para a deputada Marina Santos (foto: Instagram)

OPERAÇÃO FAKE NEWS: ONDE TERESINA SE ENCONTRA COM VALENÇA

O marido de Ivanilde, Fransélio Puti, é o atual diretor financeiro da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, tendo sido indicação da deputada Marina Santos e de seu marido Marcos Vinícius Dias, filho da ex-prefeita de Valença, Ceiça Dias, também filiada ao Solidariedade.

Mãe e filho: investigação da Polícia Civil aponta que dinheiro público financiou fake news e ataques a políticos na gestão de Ceiça Dias em Valença; Marcos Vinícius seria autor intelectual do esquema (foto: Instagram)

Fransélio e Marcos eram secretários de Ceiça na gestão encerrada no último mês de dezembro de 2020. Ela não conseguiu se reeleger em 2020, tendo sido a 3ª colocada na eleição.

A Polícia Civil investiga Marcos Vinícius -- então secretário de Governo -- por ser mentor intelectual e financiador do esquema de disseminação de notícias falsas e difamação de adversários políticos. A Operação Fake News teve sua primeira fase deflagrada no início de abril deste ano, e mostrou que um jornalista de Valença, Thiago Maciel, era utilizado para o serviço. O mesmo Thiago fez campanha para Doutor Pessoa em Teresina.

Thiago Maciel, Marcos Vinícius, Evaldo Gomes e Fernanda Gomes: todos fazendo campanha também para Doutor Pessoa; a deputada Marina Santos curtiu a postagem (foto: Instagram)

Já o atual diretor financeiro da FMC, Fransélio Puti, encontra-se com bens bloqueados por decisão judicial que bloqueou, também, os bens da ex-prefeita de Valença, Ceiça Dias.

A decisão se deu em meio de uma ação civil pública de improbidade administrativa que busca ressarcimento de R$ 1,2 milhão de reais do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), que pode ter sido utilizado de maneira indevida na gestão de Ceiça.  

Investigados na Operação Fake News fazem campanha para Doutor Pessoa desde 2018; essa postagem no perfil de Thiago Maciel é de 15 de setembro daquele ano  (imagem: Instagram)

Foi nas mãos desse pessoal que o Doutor Pessoa entregou a Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves. É esse mesmo pessoal que o vice-prefeito Robert Rios defende quando diz que errado era a o que acontecia antes, quando eles não estavam na gestão da FMC. A nova contadora que havia sido imposta pela FMC como condição para manutenção do contrato com a AAOST é ligada a este grupo.

O QUE DIZ A PREFEITURA

Em nota enviada ao PD pela Coordenadoria Municipal de Comunicação, a Prefeitura alega que não foi uma chantagem, mas um "acordo", ainda que a justificativa para a imposição tenha sido genérica: "melhor acompanhamento da prestação de contas".

Lucas Pereira, coordenador de Comunicação de Teresina,  não quis comentar o caso (foto: Jailson Soares | PoliticaDInamica)

A PMT não quis garantir que a nova contadora estava dando expediente.

Confira abaixo:

"Em relação às denúncias sobre supostas chantagens envolvendo a contratação de uma contadora na Associação dos Amigos da Orquestra Sinfônica de Teresina, a Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves esclarece que no início da atual gestão, foi sugerido a contratação de um novo escritório de contabilidade para o melhor acompanhamento da prestação de contas e da utilização dos recursos formatados em contrato de gestão solidário.

A FMC esclarece que tudo ocorreu dentro de um comum acordo entre as duas instituições e que está a disposição para qualquer resolução de dúvidas, uma vez que não há ilegalidades no processo".


O Política Dinâmica entrou em contato com Fransélio Puti, mas ele não quis responder nossas perguntas. Não conseguimos contato direto com Marcos Vinícius, Evaldo Gomes, Fernanda Gomes e Ivanilde Lima. O espaço está aberto para manifestações.  

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