Coluna Gustavo Almeida Política Dinâmica
BONDADE, SUSPEITA E FALTA DE TRANSPARÊNCIA

DIRETOR DO GRUPO ARREY EXPLICA CONTRATO COM O GOVERNO, RECONHECE QUE HOUVE FALTA DE TRANSPARÊNCIA, MAS NEGA VANTAGEM COM A CESSÃO DE HOTEL

06/05/2020 12:57 - Atualizado em 06/05/2020 13:58

O hotel Fórmula Flat Arrey, do Grupo Arrey (Foto: Jailson Soares/PoliticaDinamica.com)

A reportagem do Política Dinâmica foi nesta quarta-feira (6) até a unidade do Grupo Arrey em Teresina cedida para abrigar profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus. O hotel Fórmula Arrey, situado na rua José Olímpio de Melo, no bairro Ilhotas, está no centro de uma polêmica. Em março, o Governo do Piauí anunciou com festa que o grupo Arrey cedeu 100 quartos de um dos seus hotéis de forma gratuita para abrigar profissionais de saúde da rede estadual que não podem voltar para suas casas.

Em momento algum, a gestão do governador Wellington Dias (PT) falou que o governo teria custos. Pelo contrário, usou sua máquina de propaganda e seu poder na imprensa local para dizer que se tratava de uma boa ação do Grupo Arrey. Mas já diz aquele velho ditado: quando a esmola é demais, até o santo desconfia. No fim de semana, um outro detalhe da "boa ação" foi revelado discretamente em um publicação no Diário Oficial do Estado. 

Na verdade, o Governo do Piauí vai pagar R$ 300 mil mensais para o Grupo Arrey manter os profissionais de saúde hospedados nesse período em que eles não podem voltar para casa. No extrato de dispensa de licitação publicado no DOE, o governo diz que o "objeto é a aquisição de 100 leitos de hospedagem para atender os profissionais envolvidos diretamente no combate ao novo coronavírus na cidade de Teresina, pelo prazo de 120 dias".

Extrato publicado no Diário Oficial do Estado (Foto: Reprodução/DOE)

GRUPO ADMITE QUE HOUVE FALTA DE TRANSPARÊNCIA

No hotel, a reportagem foi recebida por Dirk Zobiak, diretor-geral do grupo, e por Elisângela, gerente da unidade Fórmula Arrey. Segundo Zobiak, a Secretaria de Saúde do Piauí (Sesapi) cadastrou cerca de 120 profissionais que estão ou já passaram pelo hotel. Na noite de terça para esta quarta-feira, garante ele, dormiram no local 90 profissionais de saúde. A unidade está fechada para demais clientes e atendendo exclusivamente os profissionais do Estado, com os devidos cuidados. Pelo menos dois deles estão com a Covid-19.

Dirk Zobiak, diretor-geral do grupo (Foto: Jailson Soares/PoliticaDinamica.com)

Ao explicar a polêmica parceria do Grupo Arrey com o Governo do Estado, Dirk Zobiak disse que houve uma grande "falha de comunicação" e admitiu que faltou transparência. Ele revelou ainda que passou o último fim de semana envolvido, junto com o Governo Estadual, na elaboração da nota divulgada à imprensa pelo governo para explicar o imbróglio.

"Houve uma falha de comunicação. O Grupo Arrey se disponibilizou em ceder o prédio. Existe uma diferença entre ceder a estrutura física e tocar a operação do hotel. Faltou um pouco de transparência quando se divulgou essa cessão", explicou. Em seguida, ele fez uma analogia com um apartamento que alguém cede para outro morar, mas os custos com mobiliário, taxa de condomínio, água e luz serão de quem vai ocupar o espaço.

Assim como dito na nota à imprensa divulgada pelo governo, Zobiak explicou que o Governo do Estado alegou que não tinha pessoal capacitado para tocar os serviços hoteleiros e por isso o próprio Grupo Arrey foi procurado para fechar contrato com a gestão. Assim, garante ele, os R$ 300 mil mensais são apenas para operação do hotel. 

Diretor explica contrato de R$ 300 mil sem licitação (Foto: Jailson Soares/PoliticaDinamica)

Apesar de garantir que não está sendo cobrado aluguel dos quartos, ele faz comparação com valores das diárias normais para explicar que R$ 300 mil por mês não é exagerado. Explica que a diária média no hotel custa R$ 170. Com isso, 100 pessoas hospedadas por 30 dias daria uma arrecadação de R$ 510 mil. Levando em conta o valor de R$ 300 mil mensal que será pago pelo Estado, é como se cada diária saísse a R$ 100 para os profissionais de saúde. Esses números comprovariam que trata-se de "boa ação" e que o hotel não está tendo lucro na história.

Nesse ponto, existe um outro lado que pode ser avaliado. Embora possa não estar tendo lucro, como alega seu diretor-geral, o hotel pelo menos garantiu estabilidade diante da crise do coronavírus. Enquanto outros hotéis de todo o país enfrentam crise financeira por não terem demanda de clientes nesse período de pandemia, o Hotel Arrey assegurou a manutenção de sua operação e pagamento de funcionários com o contrato firmado com o governo. No fim, parece ter ficado muito bom para ambas as partes.

Hotel está abrigando quase 100 profissionais (Foto: Jailson Soares/PoliticaDinamica.com)

PODERIA SER OUTRA EQUIPE

Questionado pelo Política Dinâmica se aceitaria que outra equipe ficasse responsável pela operação e manutenção do hotel, sem que o próprio Arrey fosse contemplado com o contrato de R$ 300 mil, Dirk Zobiak garantiu que sim. Ele afirma que o grupo Arrey não colocaria objeção se não fosse o beneficiado e justifica que, se isso ocorresse, apenas manteria alguns dos seus quadros no local para preservação do patrimônio da unidade, avaliado em R$ 20 milhões.

No hotel, a reportagem verificou a movimentação de profissionais de saúde e chegou a conversar com alguns deles na saída.

Modelo de quartos que são usados pelo governo (Foto: Jailson Soares/PoliticaDinamica.com)

ATOS E AÇÕES SUSPEITAS

Desde que a crise do novo coronavírus se agravou, o Governo do Piauí tem se metido numa série de atos que levantaram suspeitas e causaram polêmica. Primeiro foi a construção do hospital de campanha no Ginásio Verdão, obra cercada de polêmicas com a empresa contratada e que já foi judicializada pelo Ministério Público do Piauí. 

Contratos da gestão W.Dias geram desconfiança (Foto:JailsonSoares/PoliticaDinamica)

Teve ainda o anúncio de página inteira no jornal Folha de S. Paulo sobre ações da gestão estadual contra a Covid-19. No catálogo de anúncios da Folha, o valor da página inteira em dias de domingo é oferecido a cerca de R$ 500 mil, mas o governo do Piauí se nega a dizer quanto pagou. O TCE-PI pediu informações ao jornal para saber quanto foi pago.

Teve ainda a compra de materiais hospitalares com suspeita de subrepreço e por último o episódio com o Hotel Arrey. Todas as polêmicas envolvem muito dinheiro, quase sempre com dispensa de licitação devido à pandemia. No sofrido Piauí, a cada dia aumenta a crise de saúde e no Governo do Estado cresce a crise de confiança.

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